Aproveitando o espaço para expor um pouco das "outras coisas" mencionadas na descrição do blog.
Mas em breve vou publicar os textos finais dessa viagem e já dar início a outra jornada, rs.
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Estou longe de casa e talvez por isso tenha sido tão mais importante
tentar construir uma opinião mais forte sobre quem, afinal, deveria ser eleito
para a Presidência do país.
Começo esse artigo expondo uma característica pessoal, sou uma pessoa muito influenciável. Eu gosto de
ouvir o que as pessoas tem a dizer e não raro adapto minhas crenças e forma de
enxergar a vida agregando lições aprendidas com essas histórias.
Como muito bem colocado nessa entrevista da BBC, os
eleitores no Brasil tinham públicos bem divididos, sendo eles os crentes em
Dilma, crentes em Aécio e os do meio, que se sentiam indecisos frente às opções
disponíveis. Eu fazia parte do 3º. Grupo e tendia para um lado e para o outro,
seguindo dividida, conforme ia me aprofundando na questão eleitoral.
A princípio estava certa da minha escolha, ok vou votar no
Aécio, já chega de PT, muita corrupção, a economia está uma droga, pode rolar
um golpe de estado, chega, acho que já deu. Daí um dia estava no curso
conversando com alguns brasileiros sobre as eleições.Eu estava expondo meus
motivos do porque achava que deveria rolar uma mudança e etc e eis que uma das
brasileiras presentes levanta o seguinte ponto, “você aceitaria um cacho de
bananas e um saco de feijão como pagamento pelo seu trabalho?”, e eu, “é claro
que não!”, “pois era isso que muitas mulheres da cidade em que eu morava tinham de aceitar
como pagamento de seus patrões. Elas eram empregadas domésticas nas casas da
alta sociedade na Bahia. Depois que o PT assumiu e voltou sua atenção para as
pessoas das classes menos favorecidas, os ricos da minha cidade ficaram
revoltados pois agora as mulheres não aceitam esse tipo de pagamento, agora
elas tem voz e recursos para ter uma vida melhor”. Diante desse comentário
todos ficamos quietos.
Isso me fez repensar algumas coisas, eu mesma venho de
família humilde e devo admitir que parte do motivo de ter chegado onde estou
hoje é devido a benefícios do governo, voltados a dar acesso aqueles que até
então estavam excluídos da sociedade. Não é fato também que o próprio estado de
São Paulo, governado pelo PSDB, por pelo menos o mesmo tempo que o PT na
presidência não mudou muita coisa? O que falar sobre a crise da água ou os
escândalos de corrupção com a empresa de trens e metrô?. Seguindo na pesquisa
encontrei essa segunda matéria, também da BBC, que mostra algumas das transformações
aplicadas no Nordeste, como em Piauí, e o porque deste povo seguir tão fiel ao PT.
Parei para pensar e me coloquei no lugar dessas pessoas que
já sofreram tanto. Pensei, realmente, não há nenhuma garantia de
que o Aécio vai seguir com os projetos de maneira que toda essa parcela da
população (que saiu do nível E, para classes C e D) siga sendo beneficiada e
cuidada, sendo assim a melhor opção é a Dilma. Eu não gosto dela, acho que toda
essa corrupção precisa diminuir, uma mudança/reforma precisa urgentemente
acontecer mas quem garante que isso realmente não ocorra no segundo mandato
dela a fim de que eles queiram impressionar?
Essa nova convicção apenas ficou mais forte depois de ler tantos
comentários preconceituosos e baixos em toda a internet sobre as pessoas do
Nordeste, após o resultado do primeiro turno. Essas pessoas que só se
manifestam em épocas de eleição mas que se tem a oportunidade de tirar vantagem
de alguém no trabalho não pensam duas vezes, os mesmos que dizem votar no
Tiririca porque já esta tudo errado mesmo então não faz diferença... oi? Considerei que é tão fácil escrever esse tipo de coisa sem
nunca ter conhecido ou mesmo procurado saber como eram a vida das pessoas,
ninguém aí lembra do livro “Vidas Secas” de Graciliano Ramos? Ninguém consegue
se colocar no lugar do outro?
Sigo com minhas pesquisas e um dia começo a conversar com o
John, o landlord da acomodação que estou no momento, sobre as eleições no
Brasil. Ele por sua vez começa a me contar algumas coisas sobre o governo da
Irlanda e sobre como ele se sente frustrado e conclui suas observações dizendo “desculpe
eu já procuro pagar minhas contas todos os dias e da maneira correta, eu não
quero ficar arcando com as contas dos outros!”. Essa afirmação está relacionada aos programas
do governo Irlandês que beneficiam pessoas menos favorecidas mas que, assim
como no Brasil, possuem critérios baixos de seleção. Pessoas desempregadas
recebem um seguro do governo e ajuda para se realocarem no mercado, no entanto,
elas podem optar em não aceitar o trabalho proposto, e várias não aceitam pois
o seguro do governo às vezes é equivalente ao salário. Outro benefício é uma
casa, podendo já conter móveis e eletrodomésticos, que a família recebe ao
atender certos requisitos de carência, eles tem inclusive a opção de rejeitar a
casa e pedirem por outra!
Essa “bonança” toda tem prejudicado bastante o governo na
Irlanda e em outros países da Europa, como França e Inglaterra, que tem
programas semelhantes. O John menciona
em sua explicação “não adiantar dar as coisas, assim as pessoas não valorizam,
elas chegam na casa e nem uma mão de tinta se dão ao trabalho de dar, a fim
de oferecer um ambiente melhor para seus filhos, e o pior é que a criança segue
vivenciando isso, aprendendo esse tipo de coisa. Não pode dar o peixe, precisa
ensinar a pescar”. A frase final parece familiar para você? Esse foi um dos
motes da primeira campanha do Lula para presidência do nosso país.
Isso fez com que eu voltasse a me colocar no lugar de muitos
trabalhadores honestos das cidades mais desenvolvidas do país que estão
cansados de acreditar que arcam com os seus custos e com o de outras pessoas,
que da maneira distorcida que uma avaliação precoce na internet pode
demonstrar, não trabalham e só mamam nas tetas do governo. Entendi e me
solidarizei com a revolta deles mas ainda assim não concordei com a forma como muitos deles resolveram demonstrar isso.
Ao final de tudo e após ver o resultado das eleições
compreendi o seguinte, o Aécio não ganhou por causa da campanha de marketing
dele. Ele não conseguiu convencer a nós do 3º. Grupo que ele seria capaz de
seguir com a evolução do Brasil sem excluir novamente aqueles que ficaram
tantos anos à regalia. A campanha de marketing do PT foi muito bem
desenvolvida, dando enfoque no primeiro turno a seus projetos e no segundo as
possíveis falhas do oponente, e afinal porque o Aécio não ganhou em Minas Gerais?
Não dá para dizer que isso seja um indicador favorável à campanha dele. Porque
ele não seguiu mais firme em sua campanha no Nordeste como a matéria da BBC
citada acima aponta? Ele bem podia ter chegado em uma daquelas cidades e, sem
falar mal uma vez sequer da atual presidente a fim de não levantar
animosidades, mostrar que esse povo continuaria sendo pauta importante e
principal do governo, que se as coisas mudassem seriam apenas para melhor, que
a proposta dele era agora também ensinar a pescar.
Não foi o que aconteceu. Se Dilma foi reeleita a
responsabilidade é, em grande parte, a sua campanha de marketing, as provas
concretas da melhora de vida das pessoas menos favorecidas e de uma jogada
certeira na campanha do segundo turno, que expôs uma série de falhas do
oponente, desacreditando-o junto aos indecisos. A campanha de Aécio perdeu forças por seguir batendo em temas já
expostos no primeiro turno (Petrobras, corrupção e etc) ao invés de seguir com
ações que convencessem aqueles receosos de voltarem a ser esquecidos de sua capacidade em seguir com os projetos
existentes. Caiu na armadilha do oponente, a força do marketing em toda a sua
relevância.
Finalizo com a menção desse último texto que li
e concordei bastante. No fim nossa atenção estava restrita a pessoa errada
pois, mesmo que o cargo de presidente seja relevante para o país,
são os deputados, senadores, vereadores e outros tantos cargos que votamos no
primeiro turno que também impedem o Brasil de sair da promessa para a realidade. Tiririca e companhia seguem com seus altos salários pagos pelo
povo que os elegeu, e eu agora me pergunto, não deveríamos ter ampliado o foco da discussão?